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(Artigo
publicado na seção "Nossa Livre Opinião", da Revista
Psi-Ufo No.3, Nov./Dez. 1986, de autoria de H.G.Espuny).
Freqüentemente,
os iniciantes no estudo da Parapsicologia se questionam a respeito
da posição dessa novíssima ciência no universo do conhecimento
humano.
Durante
muito tempo, marginalizado do contexto da ciência oficial, a
Parapsicologia escalou uma verdadeira montanha de obstáculos até
ser definitivamente reconhecida na condição de ciência. Mas
apesar desse reconhecimento, ainda hoje persistem idéias errôneas
a respeito do objeto e do método de estudo no que concerne à
fenomenologia paranormal. Neste texto, abordaremos alguns dos
motivos destas idéias errôneas, demonstrando que a posição da
Parapsicologia, dentro do conhecimento humano, é clara e não deve
ser pervertida por grupos que tentam manipulá-la.
NO
INÍCIO
Devemos
recordar que até o evento de Rhine (anos 20, deste século) toda e
qualquer tentativa de sistematizar o experimento paranormal foi inútil:
inútil, às vezes, por não levar em consideração o aspecto
quantitativo; inútil, às vezes, pelos cálculos não serem dignos
de credibilidade. Esta situação afastava freqüentemente
pesquisadores sérios do fenômeno considerado sobrenatural, antifísico,
extranormal, enfim, todo o fenômeno que fugia aos padrões lógicos
conhecidos.
Em
tempos mais remotos, toda a abordagem paranormal era feita por
ocultistas ou religiosos. Como nos lembra Alfred Still ("Nas
Fronteiras da Ciência e da Parapsicologia", ed. Ibrasa), os
primeiros acreditavam que podiam manipular forças extrafísicas e
direcioná-las para seu próprio aproveitamento: enquanto os
segundos, apesar de acreditarem também nestas forças superiores,
sempre acreditaram que qualquer interferência dos deuses era uma
mera concessão, a qual deveriam solicitar através de oferendas e
orações. Destas duas óticas distintas é que se abordava o
acontecimento "milagroso", "impossível" ou
paranormal. Estabeleceu-se, então, que a religião e o ocultismo
eram os ÚNICOS MEIOS DE RELAÇÃO ENTRE HOMEM E FENÔMENOS
PARANORMAIS. Tanto assim que mesmo alguns dos homens que possuíam
mentalidade analítica e espírito de experimentação não se
livraram da aura de "magos", "ocultistas" ou
"bruxos" somente por adentrar no terreno de ocorrências
pouco comuns (Pitágoras, Paracelso, Rasputin, etc.).
Os
cientistas, portanto, decidiram esquecer por um bom tempo as coisas
sobrenaturais. Até que a própria ciência, trilhando seu próprio
desenvolvimento, abriu uma fantástica porta de possibilidades até
então pouco imaginadas: a física intra-atômica. As minúsculas
partículas sub-atômicas, com seu comportamento pouco ortodoxo,
mostraram que o velho determinismo não era assim tão
"onipotente" e o gracioso probabilismo começou a
ser encarado mais seriamente. Com esta "abertura científica",
muitos cientistas começaram a desconfiar que a fenomenologia
paranormal poderia não ser enfim, apenas "alucinações"
ou grandes mentiras, e que merecia trabalhos de pesquisa mais
sérios. Então, homens de reputação ilibada (Richet, Crookes,
etc.) colocaram seus conhecimentos e experiências na busca de
"engaiolar" o fenômeno num laboratório e trazer a
Parapsicologia para a ciência oficial. Esbarraram no preconceito de
muitos: seus próprios colegas da comunidade científica contestavam
seus métodos e, o que era pior, muitas vezes até a honestidade.
Criticavam a forma da pesquisa, visto ser a mesma tão somente
qualitativa; criticavam, também, a capacidade mental ou moral
daquele que se aventurava neste mundo desconhecido.
Por
anos persistiu o problema: como trazer para o laboratório um fenômeno
geralmente espontâneo? Como repetir várias vezes uma mesma
transmissão telepática? Além disso, como conjugar exigências
científicas com preconceitos e suscetibilidades dos sensitivos,
aqueles que manifestam o fenômeno?
As
respostas surgiram do laboratório de Parapsicologia da Universidade
de Duke (EUA), onde Joseph Banks Rhine desenvolveu, com uma equipe
brilhante, o método estatístico de experimentação. Os famosos
cartões Zenner provaram matematicamente a ocorrência de um desvio
positivo (ou negativo) de acertos que não poderia ser atribuído ao
acaso e nem tampouco a outros fatores (fraude, embaralhamento
defeituoso, marca microscópica nos cartões, etc.) também
controlados. Cumpridas as exigências dos mais ortodoxos , ou seja,
de figurar em pesquisas desta natureza um método inquestionável de
experimentação, ergueu-se a Parapsicologia de postulante à ciência
definitiva.
Apesar
de hoje arvorada na condição de ciência, algumas dificuldades
persistem. Estas dificuldades têm origem na ambiguidade de
sentimentos que a Parapsicologia pode gerar em grupos de religiosos,
ocultistas, intelectuais em geral.
A
primeira dificuldade reside nos fatos que integram a essência do
estudo parapsicológico. Enfim, o que procura o parapsicólogo?
Procura as telepatias, as clarividências, as precognições, os
poltergeists ("casas mal assombradas"), etc. E todos estes
fenômenos nunca deixaram de ser abordados pelos religiosos ou
ocultistas. Daí criou-se o que, aparentemente, seria um
"conflito de jurisdição": uma cura paranormal deveria
ser atribuída a divindades superiores ao ser humano e explorada
apenas pelo conhecimento da fé ou também a ciência, através da
recém- incorporada Parapsicologia, deve pesquisar o fato e, se possível,
integrá-lo ao grupo de fenômenos conhecidos? Muitos religiosos e
ocultistas, receando perder o domínio de seus bem conhecidos
"mundos", passaram também a exercer a atividade de
"parapsicólogos". Aqui no Brasil é interessante notar a
existência de dois grupos distintos empenhados neste tipo de situação
curiosa: padres católicos que se afirmam "parapsicólogos",
que exploram a Parapsicologia para "provar" que os fenômenos
paranormais têm origem no inconsciente e, portanto, não existem os
"espíritos" pregados pelos espíritas. Já estes, que
também possuem seus próprios "parapsicólogos",
manipulam , à vontade, informações e as apresentam como uma
"prova científica" da existência dos fenômenos espíritas.
Isto contribui para que o povo em geral e até as camadas mais
intelectualizadas acabem por atribuir à Parapsicologia uma falsa
identidade, ou seja, a de uma ciência lacaia dos interesses
"católicos" ou "espíritas" de acordo com o
"parapsicólogo" que ouvem falar ou lêem.
Outros
grupos, dos "parapsicólogos ocultistas", vêem na
Parapsicologia um excelente meio de transmissão de suas idéias.
Estes ensinam "técnicas parapsicológicas"incríveis, e
centenas de cursos de exploração do potencial psíquico são
divulgados todo ano como sendo de "Parapsicologia". Outro
erro que precisamos desmitificar: chamem de ocultismo, de técnicas
de desenvolvimento psíquico, de poder mental, etc. mas jamais de
Parapsicologia que apóia suas bases em premissas bem diferentes.
A
Parapsicologia é uma ciência que segue métodos próprios e se
baseia no conhecimento racional. Portanto, independe do conhecimento
que estrutura as religiões, que é a fé. Não fosse somente isso,
a Parapsicologia é uma ciência humana e, portanto, tem no homem o
centro de seus estudos. Aqui se estabelece uma relação suficiente
para alforriar a Parapsicologia de quaisquer vínculos religiosos ou
ocultistas que se lhe queiram atribuir. Tanto a religião como o
ocultista acreditam em forças sobrenaturais existentes
independentemente do homem. Na maior parte dos sistemas religiosos e
ocultistas, o homem ocorre como mero acidente em todo o processo
cosmológico. Já na Parapsicologia, o homem é o centro e a razão
de todo o fenômeno. Como o fenômeno paranormal ocorre sempre com
um homem, ou na presença dele, a Parapsicologia foi organizada para
buscar a relação entre um e outro.
O
objeto de estudo da Parapsicologia é a capacidade psíquica ou o
aparelho físico que propicia, no homem, a manifestação do fenômeno
paranormal. Acreditam os soviéticos que a manifestação de ocorrências
parapsicológicas está ligada a algum órgão ainda não explorado
pela ciência; já os americanos crêem que esta propriedade
origina-se do potencial psíquico ainda não explorado. Um outro, no
futuro, possivelmente será confirmado.
A
todo parapsicólogo cabe respeitar (e até exercer seu legítimo
direito de cultuar a fé) todo e qualquer sistema religioso ou
ocultista. Nada pode contestar aquilo que a fé traz como contribuição
ao ser humano. Só não se deve misturar áreas tão diferentes como
a religião ou o ocultismo e a ciência.
Outros
problemas também contribuem para a quase descaracterização da
Parapsicologia como ciência. Alguns intelectuais insistem em não
dar à Parapsicologia vida própria , afirmando ser a mesma de caráter
interdisciplinar. Alegam que não existe o parapsicólogo e sim o
engenheiro, o médico, o psicólogo, etc. que trabalham em
Parapsicologia. São utilizados conhecimentos bastante
diversificados, pois as áreas de atuação são amplas. Para fazer
uma pesquisa a respeito da porcentagem de brasileiros que já
manifestaram ou participaram de alguma ocorrência paranormal,
bastaria um especialista de pesquisa de mercado, e não um parapsicólogo;
para documentar um caso de poltergeist bastaria um bom fotógrafo ou
cinegrafista, e o trabalho seria feito. No entanto, a figura do
parapsicólogo é importante no sentido de analisar pela História,
pela Física, pela Biologia, etc. todas estas informações, e sobre
elas refletir e extrair qual seria o ponto máximo que a
Parapsicologia ainda almeja: uma teoria. Uma teoria que possa
explicar , prever e ensinar como trabalhar com o fenômeno
paranormal. Que a formação do parapsicólogo deve ser ampla, isto
é indiscutível. Mas roubar o caráter independente, e a própria
identidade da ciência é bem diferente.
A
Parapsicologia deve caminhar independentemente da Medicina, da
Psicologia e de qualquer outro ramo científico. Naturalmente que
interagindo-se e trocando informações preciosas em todos os
terrenos, mas caminhando livre, rumo ao conhecimento paranormal.
REFERÊNCIAS:
AMADOU,
Robert. Parapsicologia.São Paulo:Ed. Mestre Jou, 1966.
RHINE,
Joseph Banks. Parapsicologia Atual. São Paulo: Cultrix,
1986.
RHINE,
Louisa E. Canais Ocultos do Espírito. São Paulo: BestSeller,
1966.
STILL,
Alfred. Nas Fronteiras da Ciência e da Parapsicologia.
2a.ed. São Paulo: IBRASA, 1968.
SUDRE,
René. Tratado de Parapsicologia.2a. ed.Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1976.
herbert@espuny.com.br
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